O ESTALEIRO

incursão fotográfica à ficção

roberto santandreu

As viagens sempre nos trazem surpresas. Em 2011, visitei Macau, território que esteve sob administração portuguesa, e que foi porta do Ocidente na China até meados do século XIX. 

Na ilha de Coloane, em Lai Chi Vun, encontrei uma série de estaleiros abandonados com estruturas de madeira a que associei imediatamente os caracteres da escrita chinesa. Voltei no dia seguinte com a câmara. Havia um ambiente de ausência e decadência. Quantos homens e mulheres aí teriam trabalhado? Que sofrimentos escondia aquele ambiente de desolação? Permaneci no local fotografando um dia inteiro, no meio de tábuas afundadas no lodo, e esquivando-me a algumas estruturas metálicas e de madeira suspensas do tecto. Sob umas pranchas deslocadas do solo, divisei um caderno semi-destruído pela erosão do tempo. Abri-o e constatei uma série de folhas preenchidas com caracteres chineses, seguidos de números. Qual não foi o meu espanto ao notar que, na parte inferior das folhas escritas a lápis, havia frases no meu idioma, o castelhano. Todas elas acabavam com um traço oblíquo, seguido de um O maiúsculo.

Regressei a Lisboa. Ao analisar as fotografias realizadas e ao relacioná-las com o descobrimento do caderno, a minha curiosidade redobrou. Decidi então fazê-lo chegar à minha amiga Misuki Osawa, professora de literatura latino-americana comparada, na Universidade de Osaka no Japão. Respondeu-me com brevidade – “o que me enviaste não é mais do que um caderno de contabilidade com caracteres em mandarim. As palavras em castelhano são notáveis e com uma forte conotação existencial. Sucede com frequência que os leitores transcrevem frases do seu agrado em forma de síntese para poderem recordar. Toma nota também que, de forma imperceptível, na parte superior da terceira página aparece um nome: João Carlos da Cunha. Espero que estas informações possam satisfazer as tuas interrogações…”.

 

Após alguma investigação nos arquivos da emigração portuguesa, soube que João Carlos da Cunha nasceu em Samora Correia em 1904 e deixou Lisboa em 1927. Existem indícios de que teria participado num atentado contra o ditador chileno Carlos Ibáñez del Campo em 1928. João Carlos da Cunha conseguiu escapar, mas o seu companheiro de luta, Manuel Tristão da Silva, não teve a mesma sorte. Quando estava a ser deportado, foi assassinado na cordilheira dos Andes, ao ser-lhe aplicada a lei da fuga pelos agentes da ditadura.

Por algum tempo perdeu-se o rasto do anarquista português J.C. da Cunha, até ser detectada a sua presença em Santa María no Rio de la Plata. As numerosas fichas desgastadas e amarelecidas da Biblioteca Brausen mostram a voracidade de J. C. da Cunha pela leitura. Há notícias de que frequentava com regularidade o bar do Hotel Belgrano nessa cidade e de que também teria laborado como assistente do Gerente General Larsen, nos estaleiros Jeremías Petrus &Cía, em Puerto Astillero, situados a uma hora de navegação de Santa María.

Em 1961, deixou Santa María e estabeleceu-se como contabilista num dos estaleiros navais da vila de Lai Chi Vun, na ilha de Coloane.
As últimas investigações referem a morte de J. C. da Cunha, no seu quarto abarrotado de livros, como o de Dom Quixote. E pouco mais se sabe.

De qualquer modo, gostaria de compartilhar as vivências e sensações que tive a fotografar os estaleiros abandonados de Lai Chi Vun e também poder mostrar, com as fotografias, as frases manuscritas encontradas, que só podem pertencer a um grande autor da literatura contemporânea.

 Roberto Santandreu

Neste texto fictício, Roberto Santandreu, transmite ao leitor a ligação emocional entre a sua visita aos estaleiros na ilha de Coloane e a obra de Juan Carlos Onetti “O Estaleiro”, título que acaba por dar á primeira exposição que apresentou em Portugal deste seu trabalho. 

Roberto Santandreu – o interrogador do Tempo

No ano 2000, Roberto Santandreu apresentou, na Galeria Arte Periférica, no Centro Cultural de Belém, a exposição “A Pedra e o Homem”, iniciando, com fotografias de fortíssimo impacto estético, um percurso singular, marcado pela diversidade temática e formal e, paradoxalmente, por uma unidade e coerência admiráveis. É tentador recordar essa exposição como um mapa programático das grandes linhas que enformariam todo o trabalho futuro: o rigor e o esplendor estético, a dimensão filosófica e ontológica, a presença do real não referencial, a acção humana sobre o mundo, a memória tatuada em imagens, o jogo irrepetível do espaço/tempo. O tempo. 

É verdade que na obra de RS, nenhuma marca biográfica é reconhecível e nenhum traço pessoal é convocado e, no entanto, a memória é o húmus sobre o qual se erguem, insistentemente, as imagens. As pedras da pirâmide Maia ou a imensidão dos Andes não são visíveis e, contudo, são tão simbolicamente presentes como os literais e literários pão, milho, maçã, das odes de Neruda (“Claridade”). É a memória pessoal do jovem chileno, latino-americano que a História reenviou à Europa onde nasceu, assumida sem nostalgia, como raiz funda de um continuum que chega ao presente e traça o devir. Pessoal, mas também colectiva, a memória é ainda, e sobretudo, os vestígios materiais da passagem da mão do homem sobre o mundo, dados a ver nas carcaças de automóveis semeadas na paisagem (“Sinfonia em Ferro Maior”), na geometria metálica do estaleiro abandonado ou das tampas pisadas no chão das cidades (“O Estaleiro”, “Fluxos”), no mármore das colunas e estátuas da Grécia Antiga (“Os Dias de Mármore”). 

 

Importa dizer que o substrato de memória a que nos referimos é contrário a qualquer feição arquivística ou evocativa. Se o passado subjaz ao registo, é no presente que o olhar do artista o interroga, o revela, ousando tocar o mistério da existência humana, essa continuidade aprendida em Parménides, antepassado de Einstein, nos poetas e nos artistas que com ele têm feito o difícil caminho de restaurar a unidade do tempo dividido e dar perenidade ao tempo fugaz. Na verdade, é o Tempo o grande tema da obra de RS, presente de forma explícita (“Ensaios Sobre o Tempo”, “Tuberária Maior”, “A Valsa das Bicicletas”, “O Estaleiro”) ou implicitamente entrelaçado com outras reflexões, históricas, sociológicas, éticas ou estéticas. É o tempo que se nos revela, esplendorosamente, na criação da pintura de Graça Morais (“Registos”), ironicamente, na intervenção plástica sobre os maços de tabaco de Francisco Ariztía (“Fumando Espero”), apressado, circunstancial e/ou carregado de passado e de presente (“Reflexões na Patagónia”, “Mar de Camões”, ”Tudo Vermelho”). 

De como esta permanente interrogação filosófica se concretiza nas fotografias é uma questão do plano da Estética, não fosse a beleza um desígnio ético que RS, como todo o grande artista, persegue. As exposições “Da Beleza – Homenagem a Weston” ou “O Estaleiro”, que agora nos é dada a ver, são apenas dois exemplos fulgurantes e luminosos de uma praxis da fotografia como lugar de síntese do olhar questionador, ético e estético sobre o mundo. O nosso mundo.

Elisa Costa Pinto

VEJA AQUI TODAS AS MEMÓRIAS DO ORIENTE DE ROBERTO SANTANDREU
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